quarta-feira, 24 de maio de 2017

Espaço, tempo, cuidado

Queria poder te abraçar nesse dia frio dentro de você. E dizer de todas as vezes em que passei pelo mesmo caminho turvo em que você caminha agora, onde a esperança é quase nula e o desespero é feroz, tentando engolir todos os teus sonhos. Queria poder fazer carinho em sua cabeça e sussurrar no seu ouvido que toda essa dor que carrega nas costas vai diminuir, ela vai sim. Andei por muito tempo no escuro, me segurando nas paredes sujas do que um dia chamei de meu. Tive, por muitas vezes, a vontade dolorida de destruir todos os meus sonhos e acreditei que nenhum deles cabia dentro de mim... Ouvi palavras muito duras de pessoas amadas, calei muitas verdades tentando não incomodar, enterrei pessoas, abri porta para a solidão. Às vezes nós precisamos ficar sozinhos no meio do nada, às vezes a unica mão que pode ajudar é a nossa. Mas quero que você saiba que tem a minha. E que aqui dói te ver triste, que aqui dói não poder mudar a realidade. Mas quero trazer à memória de que há uma esperança, mesmo que pequenina, que te sustenta. Um ombro que te ampara, um abraço que te aguarda, um olhar que te entende. Há, e sempre haverá, um amor que te encontra. Não importa a distância, a dificuldade, o tempo ou o espaço entre. O amor da um jeito de chegar e te segurar nos braços e dizer que tudo vai ficar bem, mesmo que demore, mesmo que a espera seja um soco no estômago, ele vem, ele vem, ele salva.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Toc toc

Eis que ele bateu em minha porta.
Choramingando, sentido, triste, mal compreendido.
Eu abri suavemente uma brecha e encarei seus olhos quentes, da cor do sol.
Já fazia tempo que não o via, nem lembrava mais do seu semblante. Não sabia se era invenção ou verdade.
Deixei que entrasse, se embolou em minhas cobertas e usou as minhas roupas.
Comeu e ficou farto, o rosto já corado.
Se banhou, perfumou, alinhou. Já não era mais o mesmo que havia batido na porta sorrateiro.
Agora tinha as bochechas mais redondas, o olhar mais aberto, os braços firmes e a voz pouco rouca.
Já não estava mais tímido, entocado no canto da sala.
Abria a janela, a geladeira, o sorriso. Abria espaço, tomava o meu caminho.
Ele queria ar, enquanto eu sentia frio.
Gostava de dormir durante a noite, eu presa em meus ansiolíticos.
Não tinha insonia, não tinha dor, não tinha nada.
Eu escrevia poemas, ele pensava nas compras, no mercado, nos doces de pote.
Eu alinhava o terno, buscava o pão, pedia mais um pouco de atenção, enquanto ele estava são, lúcido, desobrigado e destemido.
Suas palavras antes doces passaram a ser amargas, impossíveis de mastigar. Era preciso coloca-las rápido na boca e engoli-las de uma vez só. Seus olhares antes iluminados passaram a lembrar vendavais, o frio, as ruas vazias. Suas mãos antes firmes, já não tocavam mais ninguém, viraram uma prisão da qual eu não sabia fugir. Me perguntava, quem é o estranho no ninho? Quem o deixou entrar? Meu peito já não era mais florido, alegre, bem-vindo.
Então logo depois de algumas doses de aceitação, as palavras más, o peito trancado, a música ruim, os apertões levados, os olhares secos, suas mãos fechadas e punhos prontos se tornaram normais. Tudo aquilo era merecido.
Lastimável, você vai dizer. Eu diria também.

Mas em uma tarde quente, ele desabotoou os sapatos e colocou os pés para cima, enquanto eu fugia pela janela. Escapei pela unica brecha sã que restava em mim. Eu vi a rua outra vez, vi o céu, senti o ar e meus pulmões que estavam infectados pelo costume barato de fumar tantas desilusões. Eu corria, os pés descalços. Batia o pé no asfalto fumegante, corria, corria, corria...

Com ele ficou a casa, os moveis, as roupas, quadros e vidraças.
Comigo ficaram os sonhos, a vontade e a coragem.
Com ele ficaram os vãos...
Comigo todas as possibilidades.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O menino que encontrei no caminho

Era comum
um menino desmilinguido, com olhos fundos de tanto mal dormir
que também sonhava mal, construía castelos baseados em pessoas que
tantas vezes foram embora
Era tristonho
tinha na pele a marca de suas dores
e já se levantava agarrando o cigarro com todo o desespero usual
Ele balançava a cabeça negativamente toda vez que acendia o primeiro
mas nunca desistiu de terminar
Levantava, se banhava, comia, ia trabalhar
era desaforo, mau humor, desencontro, ônibus que passava direto
era distância, chuva, frio, solidão
era tanta ganância que chegava doer nos seus ombros
tanta frieza que congelava suas emoções mais doces
era tanto nada que fazia o espaço de dentro se quebrar em vários
Até que um dia, la no fim da sua dor
escreveu o primeiro poema
o primeiro conto
o primeiro ardor
Descobriu no seu peito uma fogueira
a brasa que ardia, feria e dançava no seu ventre
também fazia reviver o ser que havia perdido na estrada
Passou a ser mais que um mero menino, menos estreito, mais afoito
aprendeu a ser também poesia
colada na vida, nas horas, nos dias.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

(...)

A vida cobra de uma maneira intensa, garoto. Não adianta. É quando você deita na cama e não levanta mesmo depois de quinze horas. E chora escondido. É quando você complica a sua vida e perde o seu amor por ego inflamado. É quando você esconde do mundo e de você o que sente a fim de parecer mais monstruoso ou menos sentimental. É quando você muda não por prazer mas por ilusão. E quando você corre mesmo não tendo pique. Quando você quer enganar o mundo mas só está enganando a si mesmo e caindo no próprio buraco negro. É aí que ela fere, corta, sapateia na sua cabeça, arrebenta seu coração. É aí que ela pede a força que você pensa ter, é aí que ela arrebenta o balão mágico onde você se esconde e te deixa nu. Sozinho e no frio. No meio da avenida lotada de carros, onde o único atropelado é você.
Hoje o dia dorme triste, Aur. É desses nos quais você estica as mãos para tocar e os dedos congelam. Nos quais você tenta sorrir mas o choro sai antes. E quando você fala, o silêncio é rei, cê sabe? Abro a porta esperando o azul e encontro cinza, das janelas dos ônibus que experimento, o mundo é sempre avante enquanto eu permaneço parada. Inerte. Como se minhas próprias formas de tristeza e cansaço me amarrassem naquele momento, onde a chuva nunca passa, o rio congelou e o fracasso é o incomodo que sinto o tempo inteiro. Mas você sabe, tem sempre uma gota bonita, uma vista com esperança, um fiapo de luz que entra pela brecha da alma e aquece. Tem uma parte ainda minha que conforta.
Aur, vivo nessas oscilações, entrelaçamentos, dificuldades, pares e ímpares que não formam casal e nessa saudade. E você sabe quando eu digo de saudade, que é como se eu sempre tivesse sentido sua falta, mesmo antes de conhecer esse novo mundo. Que para mim, cê traz essa paz para perto. E mesmo que eu também não seja daqui, e não saiba dessa trilha, me sinto segura na sua estrada. Que para mim ainda é mais bonito estar perdido em corações, do que certo de si em um deserto. Por isso me perco, me perco, me perco e continuo me perdendo… Sentir é a única mão que me salva.
Dos olhos, o frio
das mãos esguias, aquelas linhas
da boca, abismos internos
e os cabelos são como quedas permanentes
você não sai vivo quando respira o mesmo hálito
daquela boca quente de quem um dia teve fé
de quem um dia esperou também a esperança
de quem um dia também foi a parte inteira
e não só a metade deitada em um peito qualquer
daquelas pernas, o significado da palavra exatidão
ela é o nó que eu guardo no peito
e sobre todo o resto…
o resto é desespero
e outros tipos de caos.
Bem, diz para mim onde que foram parar todos os raios de luz da minha janela
agora parecem artificiais.
Bem, toda vez que me olho no espelho vejo um vulto sem rosto nem cor
apenas um amontoado de escolhas, medos e outros tipos de alucinações
eu não fecho meus olhos
porque eu tenho medo de no túnel escuro que moram neles
não ter a tão famosa luz no fim
eu tenho medo de que no meio do não ver
ninguém segure minha mão
Bem, enquanto mantenho meu olhar aberto
a ardência de mundo que vejo não sara minha pupila
e na minha córnia quase que desesperada
eu guardo o retrato que eu quero ver quando fechá-los
aquela luz no fim do túnel
você no fim da linha
nós dois no fim de tudo.