segunda-feira, 15 de maio de 2017

Toc toc

Eis que ele bateu em minha porta.
Choramingando, sentido, triste, mal compreendido.
Eu abri suavemente uma brecha e encarei seus olhos quentes, da cor do sol.
Já fazia tempo que não o via, nem lembrava mais do seu semblante. Não sabia se era invenção ou verdade.
Deixei que entrasse, se embolou em minhas cobertas e usou as minhas roupas.
Comeu e ficou farto, o rosto já corado.
Se banhou, perfumou, alinhou. Já não era mais o mesmo que havia batido na porta sorrateiro.
Agora tinha as bochechas mais redondas, o olhar mais aberto, os braços firmes e a voz pouco rouca.
Já não estava mais tímido, entocado no canto da sala.
Abria a janela, a geladeira, o sorriso. Abria espaço, tomava o meu caminho.
Ele queria ar, enquanto eu sentia frio.
Gostava de dormir durante a noite, eu presa em meus ansiolíticos.
Não tinha insonia, não tinha dor, não tinha nada.
Eu escrevia poemas, ele pensava nas compras, no mercado, nos doces de pote.
Eu alinhava o terno, buscava o pão, pedia mais um pouco de atenção, enquanto ele estava são, lúcido, desobrigado e destemido.
Suas palavras antes doces passaram a ser amargas, impossíveis de mastigar. Era preciso coloca-las rápido na boca e engoli-las de uma vez só. Seus olhares antes iluminados passaram a lembrar vendavais, o frio, as ruas vazias. Suas mãos antes firmes, já não tocavam mais ninguém, viraram uma prisão da qual eu não sabia fugir. Me perguntava, quem é o estranho no ninho? Quem o deixou entrar? Meu peito já não era mais florido, alegre, bem-vindo.
Então logo depois de algumas doses de aceitação, as palavras más, o peito trancado, a música ruim, os apertões levados, os olhares secos, suas mãos fechadas e punhos prontos se tornaram normais. Tudo aquilo era merecido.
Lastimável, você vai dizer. Eu diria também.

Mas em uma tarde quente, ele desabotoou os sapatos e colocou os pés para cima, enquanto eu fugia pela janela. Escapei pela unica brecha sã que restava em mim. Eu vi a rua outra vez, vi o céu, senti o ar e meus pulmões que estavam infectados pelo costume barato de fumar tantas desilusões. Eu corria, os pés descalços. Batia o pé no asfalto fumegante, corria, corria, corria...

Com ele ficou a casa, os moveis, as roupas, quadros e vidraças.
Comigo ficaram os sonhos, a vontade e a coragem.
Com ele ficaram os vãos...
Comigo todas as possibilidades.

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