terça-feira, 9 de maio de 2017

O menino que encontrei no caminho

Era comum
um menino desmilinguido, com olhos fundos de tanto mal dormir
que também sonhava mal, construía castelos baseados em pessoas que
tantas vezes foram embora
Era tristonho
tinha na pele a marca de suas dores
e já se levantava agarrando o cigarro com todo o desespero usual
Ele balançava a cabeça negativamente toda vez que acendia o primeiro
mas nunca desistiu de terminar
Levantava, se banhava, comia, ia trabalhar
era desaforo, mau humor, desencontro, ônibus que passava direto
era distância, chuva, frio, solidão
era tanta ganância que chegava doer nos seus ombros
tanta frieza que congelava suas emoções mais doces
era tanto nada que fazia o espaço de dentro se quebrar em vários
Até que um dia, la no fim da sua dor
escreveu o primeiro poema
o primeiro conto
o primeiro ardor
Descobriu no seu peito uma fogueira
a brasa que ardia, feria e dançava no seu ventre
também fazia reviver o ser que havia perdido na estrada
Passou a ser mais que um mero menino, menos estreito, mais afoito
aprendeu a ser também poesia
colada na vida, nas horas, nos dias.

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